terça-feira, 17 de abril de 2012

A HISTÓRIA DA CASTANHEIRA ENCANTADA QUE ESTÁ NUM JARDIM DO CÉU!


Zezinho de Brejão

Vou contar uma história,
Que foi contada a mim:
Da morte de uma castanheira,
Uma violência sem fim,
Cheia de grande emoção,
Por um filho da minha terra,
Que chegou falando assim:

A castanheira real,
No centro de minha cidade,
Bonita e frondosa,
Causava admiração,
Para quem ali chegava,
O tempo nunca passava,
Era sombra e proteção.

Desde que chegou semente,
Por uma mão abençoada,
Escolheu bem o local,
Onde ela seria plantada,
Seus galhos se colorindo,
Da castanheira encantada.

Quando ficou adulta
Tomou uma direção,
Dois galhos se formando
Aumentaram a extensão,
em prece para o espaço
Levantava os seus braços,
Pedindo a Deus por minha terra.

Por mais de seis gerações
Ela reinava sozinha,
A castanhola do povo
Servia até de meizinha,
Muito respeito havia
Pois todo mundo sabia
O valor que ela tinha.

Debaixo de sua sombra
A vida de todos passava,
Meninos, moças e velhas
ali sempre se encontrava
Com a paz que se queria,
Ali, diferença não havia,
Toda cidade se abraçava.

Lembro bem do meu pai,
Como se estivesse agora
Sentado em seu derredor,
Jogando conversa fora,
Mais Zé do Caldo, Agenor,
Aníbal e Mané Doutor
Num tempo que foi embora.

Por grande brutalidade,
Num rompante de repente,
Foram derrubar a castanheira,
Na frente de toda gente,
Bem no centro de minha cidade,
Com quarenta machadadas
Mataram um ser inocente

Chegaram numa tocaia,
Num crime feito em surpresa,
Tombaram o tronco no chão,
Sem lhe respeitar a nobreza,
O castigo há de chegar,
Deus nunca vai perdoar,
Quem castiga a natureza.

Muitas histórias de minha terra
Desabou com a castanheira,
Romances que ali começaram,
Casamentos de vida inteira,
Se alguém casar quisesse,
Havia até que dissesse
Ser uma planta alcoviteira.

A castanheira era amparo
A quem estava com canseira,
Acoitava todos os cristãos
Nos dias de festa ou de feira,
Até Nossa Senhora da Conceição
A mãe que protege minha terra
Como santa Padroeira.

A natureza chora em clamor,
O canário seu canto trina
Mais os pardais e cigarras,
O beija-flor se indigna,
Lamentam os curióis,
Os azulões e rouxinóis
E os galos de campina.

Protestou casaca de couro,
Até uma ema distante,
Assum preto e sanhaçu
Deram um vôo rasante,
A graúna e o concriz,
Os ferreiros, a perdiz
E um papagaio falante.

A gavião avoou por cima
Com o seu jeito amuado,
Sentindo falta do pouso
Ficou vendo injuriado
A castanheira por terra,
Não é isso que se espera
De um cristão civilizado.

Por que tanta brutalidade
Contra uma planta inocente,
Esquartejada e arrastada
Num deboche indigente,
Fica escrito na porteira:
Contra uma castanheira
É fácil ser valente.

Quando se está no poder,
Saiba que o poder vai e vem,
Não se pode ter soberba,
Quando o poder se detém,
Saiba quem faz tal asneira,
O tempo leva a castanheira.
Mas vai levar você também.

Quando a gente nasce,
Deixa de ser querubim,
Você escolhe o destino,
Sabe o bom e o ruim,
A vida vem a granel:
Ou se é irmão de Abel,
Ou se é irmão de Caim.

Ninguém queria acreditar,
Só podia ser ingrizia,
Dava um nopró no peito,
Vendo o que acontecia,
Como abelha em curtiço,
Houve grande rebuliço,
Em minha cidade naquele dia.

Antes de cair no chão,
A castanheira sabida
Soltou algumas sementes
Na despedida da vida,
Queria mais tarde brotar,
Voltar de novo a habitar
À sua terra tão querida.

Um caboclo ressentido,
Que nunca perdeu a fé,
Levou dali as sementes
Seguindo a trilha à pé,
Plantou as castanheirinhas
Do Riacho Seco, Ribeirinhas,
Pros lado do Jacaré.

Quem é filha da rainha,
Já nasce rainha também,
Por enquanto são princesas,
Mas irão muito além,
Está certo o dito do povo:
"O pinto já sai do ovo
Cá pinta que o galo tem".

Um dia no meio da festa
A castanheira vai voltar,
A semente germinada
Em procissão vamos levar,
A filha da castanheira
Tão bonita e altaneira
Plantada no mesmo lugar.

Ninguém vence a natureza,
A história não acaba assim,
A castanheira encantada,
Agora tenho para mim,
Está longe do perigo,
Deus lhe deu um abrigo,
No céu enfeita um jardim.




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