sexta-feira, 30 de março de 2012

O PADRE ADELMAR DA MOTA VALENÇA


A ninguém importava a ordem hierárquica religiosa. Fosse ele um cardeal e mesmo assim seria o Padre. Era um ícone. Um símbolo na vida de Garanhuns.

Foi embora na madrugada do dia 8 de agosto de 2002. Tinha 94 anos e os que o reverenciavam não viam nele velhice, muito menos mortalidade. Razões irracionais que estão e serão comprovadas. O padre não era um velho nem morreu. Sua juventude eterna está na visão de mundo que instalou nos espíritos de muitas gerações. Que se multiplicam, que se multiplicam, e carregam padrões éticos fora de moda. Até quando ele entrava imponente na Capela do Colégio Diocesano de Garanhuns para enfrentar as feras, o fazia com um discurso que a muitos parecia fora de moda. Ele dizia quais as melhores regras de bom viver. 

Trabalhava as mentes dos jovens com idéias dadas hoje como caretas e que, no entanto, são ontológicas, estão na raiz da natureza humana. Que pode ser boa ou má em sua origem, mas sempre precisará de gente como o Padre para fazê-la melhor. Ele pode ter ido embora desencantado, vendo o mundo bem diferente do que tentava recriar a cada nova aula de moral que levava a seus alunos inquietos, quase sempre despreparados. Mas seguramente ficou muito do que ele semeou e muito germinará. Até porque outras luzes, algumas até de grande distinção internacional, preconizam o significado ético como fundamental para o novo milênio. E outra não foi a lição permanente do Padre: a ética. No trato entre pessoas da mesma família e entre estranhos, com o mesmo apuro. 

Por isso ele não se foi muito velho, como pode dar a entender a idade cronológica de 94 anos. Também não morreu, porque uma legenda. Uma legenda não morre. Ela será reproduzida enquanto for necessária para dar sentido à vida. As lições do Padre serão sempre necessárias. Não importa que hoje o Colégio Diocesano já não pareça o mesmo. Pode até nem ter a disciplina pedagógica do passado, que fazia parte do projeto de vida integrada, da educação na escola levada para casa, e da educação de casa levada para a escola. Não importa se houver afrouxamento de caráter, expressão que ele repetia com tanto asco, nada disso será mais forte que o exemplo dele. Que será remarcado, relembrado, retomado, sempre que estivermos diante de um gesto de frouxidão de caráter. Isso é o que faz a legenda. Perene, muito além do fortuito.

O Padre se foi, mas o casarão do velho Colégio Diocesano de Garanhuns permanecerá como um tributo à sua memória.
Como é sempre memorável a catedral onde se encontravam os estudantes para cantar salmos em uma entonação grave que ressoa na memória até dos descrentes. O Padre se foi e tudo continuará como sempre.

Garanhuns nunca poderá ser enaltecida sem o seu Colégio Diocesano, que é a materialização de um homem magnífico, inesquecível enquanto existirem, em nosso idioma. termos como decência, retidão, ética, doação, amor.
(Editorial do Jornal "A Gazeta" de Bom Conselho em agosto de 2002).

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